Domingo, Janeiro 20, 2008

Saciedade (Andrea Cristina Lopes)


Minha voz é leito macio,
água que escorre suave
deslizante margem de rio,
quando indago sua boca
e, sem restrição,
seu nome, sem pressa
pronuncio.

Seus olhos braseiros atentos
são densos além, da concepção
réstia de sol adentrando a janela,
primeira manhã
do novo verão.

Lábios inebriantes
qual cálice de vinho
alheios à sombra
fatal realidade
sublime silêncio
e depois desse tempo,
resta de nós
só saciedade.

Andrea Cristina Lopes - Curitiba/Paraná
051/05

Contemplação (Jean-Pierre Barakat)


E agora sei escutar o silêncio.
Disse-me ele que as palavras vãs fazem sentido,
Como a folha amarelada que cai no outono:
Algo morre, e é preciso sorrir, porque
Toda morte carrega uma vida em si.

Lembro do passado: lembro tudo.
Nada, porém, é mais deslumbrante que o Agora,
Esse, que vem, arrebata todas as razões e
Derruba as falsas seguranças que queremos:
Não é nosso esse privilégio de saber por certo.

Seja assim, então, que a Vida venha, plena
E imprevisível em mim, no efeito do Amor,
Seduzindo a minha alma com a sua promessa
De manhãs únicas, frágeis e inspiradoras:
E que o meu olhar possa sempre encontrar o teu.

Para abraçarmos a mesma visão no horizonte.

© Jean-Pierre Barakat, 2005

Que essa voz e esses versos ...(Simone Salles)


Que essa voz e esses versos...
Provoquem-lhe calores, cios,
Umidade nas mãos, secura nos lábios.
Alternem-se suores e calafrios.
Incontroláveis, estremeçam
cabeça, tronco, membros.

Em múltiplas e sucessivas vertigens
entregue-se a mim - vencido, resignado.
Até que, mendigo, urgente, faminto,
para um novo duelo desejo e delírio
desafiem-lhe outra vez e novamente.

Que essa voz e esses versos...
Sujeitem-lhe à interminável tortura,
Limite entre dores e delícias.
Submisso, só volúpia, perdição,
Carência, demência, alucinação.
Arrebatado, todo arrepios, tremores.

Vórtice-vértice, sob meus inclementes açoites,
transmute-se em espada, lança.
Exposto, indefeso, vulnerável,
fustiguem-lhe as tensões da carne.
Agora, somente nervos, musculatura,
urgência, dependência, loucura.

Que essa voz e esses versos...
Lembrem-lhe: é e será, sempre,
instinto e intuição, quereres e coração.
Fadado está a existir, assim, dividido.
Em um Homem, milhares de homens,
numa interminável e aparente contradição.

Amar apaixonadamente, acasalar lascivamente.
De servo à senhor, de submisso à opressor.
Sem egoísmo, vingança, rancor,
Razão e emoção em sangrento embate:
Dar-se - doar-se a mim, nobre e credor.
Será essa sua bênção ou a sua maldição?

Que essa voz e esses versos...
Aivem-lhe lembranças de sentidas emoções,
Esquecidas hoje n'alguma gaveta ou armário,
Em empoeirados vãos e desvãos da memória.
Sopre o pó do tempo, a fuligem dos costumes.
Seja homem e fauno, encanto e sensualidade.
Só gozo, devassidão, luxúria, paixão.

Que essa voz e esses versos...
Tragam-lhe lindas e ternas recordações.
Amores mansos, paixões enlouquecidas,
Doloridos romances, tórridas ligações.
Sem tristeza, amargura, consternação.
Seja ardente, sedutor, obceno, cavalheiro.
Só prazer, volúpia, loucura, tesão.

Que essa voz e esses versos...
Façam-lhe ardores advinhar,
Odores pressentir, amores pressagiar.
Flutue em fantasias, perca-se em devaneios.
Sonhe! Desvairadamente, sonhe!
E se, por desventura, sonhar não lhe for possível...

Que essa voz e esses versos...
Lhe transportem para outra dimensão,
outra realidade, tão irreal quanto a nossa.
Lá, tudo seja provável, nada impossível.
Não haja tempo, espaço, início, fim.
Seja uma inebriante e interminável melodia.

Que essa voz e esses versos...
Toquem-lhe alma, coração, sentidos.
Ainda é outono. A brisa é morna.
Permita que ela lhe afague, acaricie.
Que o tempo, moroso, conduza-lhe gentilmente
por calçadas, ruas, viela. Siga em frente...

Nesse final de tarde, meio adormecido
Em passos calmos, encantado pelo vento
Sem pressa, sem premência, sem urgência,
Caminhe... Apenas caminhe...
Até uma ponte. Qualquer ponte.
Aquela ponte. Nossa ponte.

Sábado, Novembro 17, 2007

Estrada (Tonho França)


Sobre o linho branco
da toalha
o vinho derramado.
Tintas, as lágrimas
esgarçadas
que disfarço entre presente e passado.
A janela já não mostra paisagens.
A quem importa as horas que os relógios
insistem em marcar?
Som e silêncio se completam.
Meus passos pela escada
minha sombra passa por mim
Vou pela estrada, a vida é ser estrada
fica o cheiro de alecrim...

046/05

Silêncio (Verônica Aroucha)


Fiquei sem compreender teu cálido silêncio; ruidoso e com todos os
sons para mim. Ensurdecedor mas, a vergonha cobria minha face
inexpressiva, porém, meus olhos brilhantes salvos na espera.

Perder a esperança é apenas uma imposição que o destino obriga,
instiga.

Não submeto o meu claro sentimento a tamanho desencanto. Continuo
desconfiando do inevitável. Na terra em que habito, as suposições
têm a mesma constância das estações do ano - apenas alterações
jamais previstas.

E o teu silêncio, persegue-me nas horas suaves em que prendo os
cabelos, nas horas louváveis em que me debato contra a sombra do
medo: o de partir - ao meio.

Fui tão longe pela tua procura; imensa ausência.

Suave é a dor que me faz rir baixinho, no triste tom de despedida.

Os lírios (Henriqueta Lisboa)


Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos - perfeitos! -
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre lírios
adormecerei tranqüila.

Henriqueta Lisboa, poeta brasileira (1901-1985)
(Fonte: "Poetas Portugueses y Brasileños", Edição Bilíngüe,
Thesaurus Editora de Brasília, 2002)

A fatalidade (António Botto)


A fatalidade,
Várias vezes
No meu caminho aparece;
Mas,
Não consegue perturbar
A minha serenidade.

Somente,
No meu olhar,
Poisa e fica mais tristeza.

Não me revolto,
Nem desespero.

- Quero morrer em beleza.

António Botto, poeta português (1897-1959)
(Fonte: livro "Poetas Portugueses y Brasileños", edição bilíngüe,
Thesaurus Editora de Brasília, 2002)

Uma pontada no coração (Carlos Ortega)


1
Se te entregas, pois, te rompes;
se pensas, tornas-te dois;
chorar não te engrandece.
Os salientes, esquinas homicidas,
as coisas que te rodeiam
e buscam tua mandíbula
de cristal. Qualquer golpe te parte.

2
Oh pontas dolorosas
que fazeis morrer de medo,
abismos que vós abris
ao passo vacilante dos filhos
para o lugar do pânico,
tudo vai se apertando neste vão,
cresce roliço.

3
Perigo de morte não é um poema,
nem é gênero que anuncie
nada mais que seu fim,
a não ser um presságio,
para ir cobrindo em outro,
por negra lealdade à sua mirada,
todos teus pontos fracos.

Carlos Ortega, poeta espanhol (1957)
(Fonte: Poesia.com www.poesia.com)
(Tradução Jean-Pierre Barakat)

Domingo, Agosto 12, 2007

O Amor (Jean-Pierre Barakat)


Mistério e Sorte
Na dualidade da existência:
Luz da esperança?

Além, muito além da Morte:
Ressurreição das profundezas
Da alma na sombra
Cada vez que o coração bate.

Amor, uma obra de arte.

by Jean-Pierre Barakat, 11.02.2005

Sonda (Jean-Pierre Barakat)


A vibração da onda
Sonda no meu oceano
Onde a razão de achar-me
Explora essa imensidão.

Não há porém desespero.

Apenas o anseio
De sermos UM:
E ocupar todo esse Espaço.

by Jean-Pierre Barakat, 18.02.2005

O além da vida (Jean-Pierre Barakat)


Ser rio
Ou ser margem:
Onde a vantagem?

Estar na beira
Da partida
Para mergulhar
Além do limiar
Da emoção reprimida

Explorar
O que ninguém
Abraça e anseia:
O além.

Da vida.

Jean-Pierre Barakat, 17.02.2005

Domingo, Maio 13, 2007

Poema de Mariana Ianelli


Deste-me o segredo de teu nome
E era pouco;
Deste-me luz, completo entendimento,
Uma força maior que a tua
Para quando eu me perdesse.
Juventude e paciência
Que vão juntas raramente
Apegaram-se a mim
Porque estive em tua presença
E ainda hoje permaneço
Leal a teus mandamentos.
Debaixo do sol, onde por um instante
Nos olhamos sem diferença,
Eu pretendi este poema em teu louvor
E, como se não fosse por ti,
Me tornei imenso.

Mariana Ianelli, poeta brasileira (1979)
(Fonte: Trecho do livro "Passagens", Editora Iluminuras Ltda., 2003)

Mar e moto (Jean-Pierre Barakat)


Mar e moto
Estar aqui no mar
E moto das emoções
Viver remoto de tudo
Há mar absoluto
Amar é infinito
Maremoto.


© Jean-Pierre Barakat, 08.02.2005

Poema de Dante Milano


III.


O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.

Dante Milano, poeta brasileiro (1899-1991)
(Fonte: Coleção "Melhores Poemas", seleção Ivan Junqueira, Global Editora e Distribuidora Ltda., 1998)

Sábado, Abril 07, 2007

Voar e pousar (Conceição Albuquerque)


Duas vontades me atiçam: voar e pousar.
Voar aonde gorjeios afinam pianos
e tédios se esvaem em ardente sarça,
aonde a saudade se esgarça
e faz encolher sofrida paixão.


Duas vontades me atiçam: pousar e voar.
Pousar em vias de afeto
que de urso me transforme em alce
e em sorrisos, apartados de faces,
vozes escusas se façam canção.


Duas vontades me atiçam: voar e pousar.
Não me importa em que direção
menos ainda em que superfície
voar ou pousar.
Inventar o caminho, entre o vôo e o pouso
importa mais, é desafio
tal mar revolto sem bóia de salvação.

Conceição Albuquerque
Do livro "Poesia em três tempos" (Editora Bom Texto)

Improviso para Tom (Jean-Pierre Barakat)


Para Tom Jobim

A tarde de Ipanema
Desliza em lânguidos matizes
Sobre a boca de Luiza,
Pelos caminhos cruzados
Da bela e inútil paisagem.
Vivo sonhando por causa
Do amor, da melodia da noite
Que cai sobre a partitura alva
E o piano mudo:
Sem tom, sem Tom.

by Jean-Pierre Barakat, 20.01.2005

Poema de Neide Archanjo


22

Meu rosto trabalhado em sombra
hoje no poema se propõe,
como se aquietados meus rigores
surgisse um novo reino.
Do antigo corpo trago ainda
o cordão umbelical,
abrigando-me nestes pactos
que vou fazendo com a vida
sem perguntar da morte,
nesta casa que procuro dividir
mesmo corrompendo o coração.
Sei que cada um é posto
sem reincidência de sangue,
isolado em seu espaço.
Talvez por isso decida
ainda que a hora seja de amor.

Neide Archanjo, poeta brasileira (1940)
(Fonte: "O poeta itinerante", Editora i.l.a Palma, São Paulo, 1968)

Domingo, Março 04, 2007

XV (Georges Schehadé)


Se és bela como os Magos do meu país
Oh meu amor não irás prantear
O soldados mortos cuja sombra foge à morte
- Para nós a morte é uma flor do pensamento


É preciso sonhar com os pássaros que viajam
Entre o dia e a noite qual rastro
Quando o sol se afasta nas árvores
E faz de suas folhagens outra pradaria


Oh meu amor
Temos os olhos azuis dos presos
Mas os sonhos adoram os nossos corpos
Deitados parecemos dois céus no espelho d'água
E a palavra é a nossa única ausência

Georges Schehadé, poeta libanês (1905-1989)
(Fonte:
http://leb.net/~philo/ )
(Tradução Jean-Pierre Barakat)

328 2004

O anjo bom (Rafael Alberti)


Veio quem eu queria,
Quem eu chamava.


Não aquele que varre os céus sem defesas,
luzeiros sem cabanas
luas sem pátria,
neves.
Neves, dessas caídas de uma mão,
um nome
um sonho
um rosto.


Não aquele que aos seus cabelos
atou a morte.


Quem eu queria.

Sem arranhar os ares,
sem ferir folhas ou mover cristais.

Aquele que aos seus cabelos
atou o silêncio.

Para, sem me agravar,
cavar uma ribeira de luz doce no meu peito
e tornar a minha alma navegável.

Rafael Alberti, poeta espanhol (1902-1999)
(Fonte: Poéticas
http://www.poeticas.com.ar/Directorio/Poetas_miembros/Rafael_Alberti.html)
(Tradução Jean-Pierre Barakat)

Rima I (Gustavo Adolfo Bécquer)


Eu sei um hino gigante e alheio
que anuncia na noite da alma uma aurora,
e essas páginas são desse hino
cadências que o vento estende nas sombras.

Quisera eu escrever-lhe, do homem
domando o rebelde, mesquinho idioma,
com palavras que fossem simultâneos
suspiros e risos, cores e notas.

Em vão porém é a luta, pois não há cifra
capaz de encerrá-las; e tão somente, ô formosa!,
se, tendo em minhas mãos as tuas,
eu pudesse, ao ouvido, to cantá-lo a sós.

Gustavo Adolfo Bécquer, poeta espanhol (1836-1870)
(Fonte: Poemas del Alma
http://www.poemas-del-alma.com/rima-i.htm)
(Tradução Jean-Pierre Barakat)

Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

Idílio do Elo (Jean-Pierre Barakat)


Para Cristiana Toscano


A semente precisa
De água, de sol
E de uma mão carinhosa
Regando o chão:
Cuidando, com emoção...


Assim o amor
Abençoa os caminhos
Que por aqui se cruzam
E seguem paralelos:
Revolvem, eternos em seus elos.

Jean-Pierre Barakat, 22.10.2004

Lépida e leve (Gilka Machado)


Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
O verso não descreve...
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em seu labor,
gostos de afagos de sabor.


És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesmo acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.


Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.


Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!


— Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
— Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação,
és o elástico da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
— Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...


Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me veste quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...


Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inféria e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...


Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...